A Mula

A MULA

Alguém disse que com o passar do tempo Clint Eastwood só melhora. Aos 88 anos, depois de atuar em setenta e dois longas e quarenta obras como diretor, Eastwood aparece no que dizem ser seu último filme como ator. Em “A Mula”, (The Mule) o “imperdoável” interpreta Earl Stone, um agricultor florista dono de um próspero negócio que com a chegada da internet se vê fora do mercado e, no fundo do poço, aceita transportar entorpecentes para um cartel do narcotráfico mexicano. Ocupado com seus negócios, Earl foi um marido indiferente e um péssimo pai. Aplaudido na rua, foi odiado em casa. Preferia os eventos do trabalho e se esquecia das datas mais importantes de comemoração da família. Ele deixou de ir ao casamento da própria filha que deixou de falar com ele e evitava sua presença. Sua ex-esposa, Dianne Wiest, acusava-o de privar a família do seu melhor e oferecer seu tempo e talento para estranhos.

Como esperado, A Mula foi ignorado pela Academy Awards. Seu roteiro tem um problema politicamente incorreto.  O velhinho protagonista “perdeu o filtro da correção política” ou “nunca teve filtro nenhum”. Algumas declarações constrangedoras e tidas por preconceituosas não agradaram a AGENDA. A tolerância é seletiva. Some-se a isso que o astro, em sua vida pessoal, é um conservador e fez declarações imperdoáveis para a elite progressista que comanda Hollywood. 

Eastwood defende Donald Trump com vigor e deixou claro em muitas cenas do filme, em que também é diretor, a afirmação do seu pensamento político. Para o Inspetor Dirty Harry, boas intenções não bastam. (Nota de Spoiler) Earl Stone não aceita o discurso de vítima, reconhece seus erros, enfrenta a justiça e a ameaça de morte dos narcotraficantes com dignidade. É verdade que existem momentos que o filme perde o tom. Há cenas que poderiam ser dispensadas. Mexicanos sempre aparecem como criminosos e mulheres são tratadas como objetos de consumo. Erros à parte, o filme é bom e vale a pena ser assistido.

Há quem diga que “A Mula” seja um filme de despedida, e se isso for verdade vamos ficar com saudades de Clint Eastwood — ele nasceu para atuar. Mesmo frágil pela idade, parece forte, consegue misturar vulnerabilidade e seriedade, empatia e firmeza, charme e determinação. É uma pena que atores assim tenham que se aposentar. Mas esta é justamente a melhor parte da trama de “A Mula”, onde personagem e ator revelam sua melhor parte no final da vida.

A história de Earl Stone pode ser também a história de todos nós. Em um diálogo no filme, Earl Stone, após sua reconciliação com a filha Irís (Alison Eastwood, filha também na vida real) afirma que reconheceu tardiamente as coisas que importam. Em resposta, Iris diz: “Você só demorou desabrochar”. Ou seja, a vida pode começar a qualquer hora. Mesmo que tenhamos gastado tempo demais com futilidades, podemos ainda acordar a fim de valorizar as coisas que realmente interessam. John Maxwell define sucesso como “ter perto de si as pessoas que você ama”. Earl Stone declara “pude comprar tudo na vida, menos o tempo”. Acho que ele parafraseou Moisés no Salmo 90:

“Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios”. Salmo (90:12)

O quanto demoramos a “desabrochar”? Será que esta é sua hora para acordar? É certo que alguns irão morrer sem conseguir revelar ao mundo quem são de fato, porque estão presos em comportamentos e compromissos que lhes rouba o melhor da vida. Você não precisa chegar ao fim da sua existência para descobrir que pessoas e não coisas são seu maior ativo. Em seu último filme e em sua velhice, Clint Eastwood parece querer nos dizer por experiência que o melhor da vida é dar aos outros o que temos de melhor em nós. Pense nisso!